quinta-feira, 16 de abril de 2026

Futebol, Autismo e Inclusão: Movimento de autistas nas torcidas dos clubes de futebol favorece a paz nos estádios

Athletico e Coritiba possuem movimentos dos torcedores autistas


O futebol no Brasil é fator de reconhecimento do país e representação do “ser brasileiro”. Entendendo que são variadas as temáticas envolvidas na dinâmica social.

Romário - campeão do mundo pelo Brasil em 1994 atualmente é senador da República e um dos principais protagonistas da causa autista no país

Senador Romário celebra dez anos da Lei Brasileira de Inclusão

A ideia do Brasil enquanto o “País do Futebol” como parte do imaginário popular vem sendo consolidada há tempos e o futebol se transformou em instrumento de representação do país e do “ser brasileiro” em muitas circunstâncias e, por meio dele, veiculamos sentidos coletivos sobre nós mesmos. É possível afirmar que a identidade brasileira é constituída a partir da identificação do sujeito com marcas sociais atribuídas pelo futebol e pelas influências socioculturais internalizadas pelo brasileiro.

Marcas e influências representam papel constitutivo no desenvolvimento humano, em um processo de formação social por meio da produção de singularidade e influências socioculturais.

De forma breve, sabe-se que o senso comum aponta a introdução do futebol no Brasil a Charles Miller, reconhecido em dimensão mitológica por trazer da Inglaterra bolas para a prática do esporte. Então, o futebol estava restrito às elites, mas tal exclusividade não durou muito tempo e foi apropriado pelos mais populares.

Vários acontecimentos contribuíram para a construção identitária do país e, enquanto instituição, o futebol possibilitou a sublimação de elementos da formação sócio cultural.

É necessário considerar os vários acontecimentos que marcaram a dimensão do futebol como esporte de massas no Brasil, desde sua chegada até a segunda década do século XXI, fatos estes que modificam a forma de “olhar” para a modalidade e que implicam o estudo embrionário proposto para este assunto.

Contudo, sinalizamos que, especificamente aqui, refletimos a partir da paixão que o futebol mobiliza e o que está implicado quando se propõe debates contemporâneos sobre inclusão em movimentos sociais coletivos do futebol. 

Posto isto, este artigo se debruça sobre o fenômeno que tem se destacado nas arquibancadas de torcidas de futebol pelo país: a inclusão de pessoas neuroatípicas, especialmente no Transtorno do Espectro Autista (TEA). Salas e espaços sensoriais adequados já podem ser encontrados em alguns estádios do país.

A inclusão de pessoas com autismo tem sido uma ferramenta poderosa para promover a paz e a empatia no futebol brasileiro. Esse movimento transforma o ambiente do estádio de um lugar de rivalidade agressiva para um espaço de acolhimento e respeito à diversidade. 

Como o autismo contribui para a paz no esporte

Redução da Hostilidade: A presença de torcedores autistas e a criação de espaços inclusivos incentivam as torcidas neurotípicas a adotarem comportamentos mais respeitosos e menos agressivos.

União entre "Rivais": Torcidas organizadas de diferentes times têm se unido em torno da causa do autismo, priorizando a acessibilidade e o bem-estar comum sobre a rivalidade histórica.

Humanização do Espetáculo: Clubes que implementam infraestrutura inclusiva (como salas sensoriais) enviam uma mensagem clara de que o futebol é um espetáculo para todas as famílias, o que ajuda a suavizar o clima de tensão nos estádios.

Identificação e Respeito: O uso de identificadores (colares, abafadores ou camisas específicas) sinaliza aos demais torcedores a necessidade de um ambiente mais controlado e pacífico para garantir o conforto de todos.


No Paraná, Athletico e Coritiba contribuem para a inclusão

Com 2,4 milhões de autistas no Brasil, clubes de Curitiba mantêm espaços adaptados em seus estádios e ampliam a inclusão no futebol

O mês de abril é o momento Mundial de Conscientização do Autismo e reforça a importância da inclusão e da adaptação de espaços públicos para pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA).

No futebol, esse movimento segue em expansão, e clubes como Athletico e Coritiba têm implementado estruturas específicas para garantir uma melhor experiência aos torcedores neurodivergentes.

De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, divulgados no Censo 2022, o Brasil possui cerca de 2,4 milhões de pessoas diagnosticadas com autismo, o equivalente a aproximadamente 1,2% da população. O levantamento, inédito na história do Censo, reforça a necessidade de políticas públicas e adaptações em ambientes coletivos, incluindo os estádios de futebol.

No mesmo estudo, Curitiba aparece como a cidade com maior população autista do Paraná, com cerca de 24.830 pessoas diagnosticadas com TEA. O número amplia o debate sobre a necessidade de adaptação de ambientes e reforça a presença desse público em diferentes espaços da sociedade, inclusive no esporte.

Identidade do movimento da torcida do Athletico Paranaense: Autistas da Caveira - integra a torcida organizada Os Fanáticos


"Seguimos acreditando que inclusão não é apenas abrir espaços, mas garantir pertencimento real. É sobre escuta, empatia e adaptação contínua para que cada pessoa possa existir plenamente, do seu jeito, com dignidade e autonomia." diz a mensagem no instagram do movimento Autistas da Caveira, torcida do Athletico Paranaense.

Athletico investe em camarote multissensorial na Arena da Baixada

Sala sensorial do Athletico, na Arena da Baixada, oferece ambiente controlado para torcedores com TEA no Dia do Autismo Athletico
 Foto: José Tramontin/Athletico

Na Arena da Baixada, o Furacão inaugurou em 2025 uma sala multissensorial, projetada para atender torcedores com sensibilidade a estímulos intensos, como barulho, luz e movimentação.

O espaço funciona como um ambiente de autorregulação sensorial, permitindo que pessoas com TEA possam acompanhar os jogos com mais conforto e segurança. A estrutura conta com isolamento acústico, iluminação controlada e capacidade limitada, além de acompanhamento de profissionais.

Clique aqui e veja o vídeo 

Coritiba mantém camarote adaptado desde 2022

Coritiba mantém sala sensorial no Couto Pereira e amplia inclusão de torcedores com TEA no Dia do Autismo Coritiba
Foto: Divulgação/Coritiba

No Estádio Couto Pereira, o Coxa também acompanha as pautas de inclusão. O clube conta com uma sala de acomodação sensorial, voltada principalmente para pessoas com TEA, desde novembro de 2022.

O ambiente foi desenvolvido com foco na redução de estímulos externos, com recursos como isolamento acústico, controle de iluminação e mobiliário adaptado. O acesso ocorre mediante agendamento, permitindo que torcedores possam usufruir do espaço durante as partidas.


Matéria da Veja mostra alguns clubes que investem em espaços para torcedores autistas 

Comissão de Esporte aprova espaço reservado nos estádios para pessoas autistas

Decisão em caráter terminativo, proposta aprovada pela Comissão do Esporte segue para a Câmara dos Deputados

A presidente da Comissão de Esporte, Leila Barros (PDT-DF), elogiou a proposta que descreveu como mais um passo para a inclusão no esporte. Estima-se que no Brasil há 2,4 milhões de pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), o que corresponde aproxidamente 1,2% da população brasileira, segundo pesquisa divulgada pelo IBGE em 2025.

Foto: Senado


— Um dos pilares do esporte é a inclusão. E é muito importante a gente ter esses espaços direcionados às pessoas que possuem o TEA. Importante também, acima de tudo, registrar essa união feita claramente em torno da proposta para a aprovação — afirmou Leila Barros.

Torcedores nos estádios

Diversos clubes brasileiros estão atuando em prol da inclusão da comunidade aos ambientes do futebol. Uma das principais medidas adotadas foi a inauguração de salas sensoriais em arenas/estádios para acolher pessoas diagnosticadas com o Transtorno do Espectro Autista (TEA).

Autistas do Fortaleza

Autistas do Corinthians

Autistas do Ceará lotam o estádio

Autistas do Santos


ESPORTE

Do ponto de vista esportivo, o futebol proporciona benefícios para a saúde física e mental.

A principal ferramenta terapêutica do esporte é a interação social. Mesmo que não haja comunicação verbal, o contato e a troca acontecem pela dinâmica do jogo. As escolas de futebol tem o propósito de ensinar valores do trabalho em equipe e para as crianças aprenderem a lidar com frustrações, desenvolver coordenação e, acima de tudo, conviver com o grupo.

Diagnóstico de autismo e paixão pelo futebol com Haaland de inspiração: conheça Ycaro, atleta do Atlético-PI

Filme mostra o hiperfoco de um jovem autista no futebol

O Melhor Torcedor do Mundo é um filme de 2023 baseado em uma história real que aborda a relação entre um pai e seu filho autista através do futebol. 

Resumo do Filme

A história acompanha Jason, um garoto autista de dez anos que enfrenta dificuldades de adaptação na escola. Para evitar ser transferido para uma escola especial, ele faz um acordo com seu pai, Mirco: Jason se esforçará na escola se o pai o ajudar a escolher um time de futebol para torcer. No entanto, Jason impõe uma condição — ele quer visitar os estádios de todos os 56 clubes das três primeiras divisões da Alemanha antes de decidir.

Durante essa jornada, eles enfrentam desafios do autismo, aprendem a se entender melhor e fortalecem a relação entre eles.

Ideia principal do filme:

  • Autismo e inclusão social
  • Relação entre pai e filho
  • Futebol como forma de conexão
  • Aceitação das diferenças
  • Torcidas e cultura do futebol

No final, o futebol deixa de ser apenas escolher um time e se torna uma ponte para compreensão, amizade e pertencimento.

A relação entre torcidas de futebol e o Transtorno do Espectro Autista é complexa: para algumas pessoas autistas é uma experiência muito positiva; para outras, pode ser difícil por causa dos estímulos intensos.

Assista o Trailer



Pontos positivos e desafiadores do autista no estádio de futebol

O que pode ser positivo:

  • Sentimento de pertencimento: torcer por um time cria identidade e comunidade
  • Rotina previsível: acompanhar jogos, tabela e estatísticas pode ser confortável
  • Interesse profundo: muitos autistas gostam de memorizar jogadores, números e táticas
  • Expressão emocional: cantar e torcer pode ajudar a externalizar sentimentos

O que pode ser desafiador:

  • Barulho alto (bateria, gritos, fogos)
  • Multidão e contato físico
  • Luzes fortes e estímulos visuais
  • Mudanças inesperadas (gol, comemorações intensas)
  • Pressão social para agir igual à torcida

Como tornar a torcida mais inclusiva:

  • Setores mais tranquilos nos estádios
  • Uso de fones abafadores de ruído
  • Entrar antes para evitar multidão
  • Acompanhante para apoio
  • Projetos de torcida inclusiva com conscientização

Fontes:

Intercom 

Banda B 

A magia das torcidas - canal autismo